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13/8/2008 - Parceria aquaviária e terrestre

Parceria aquaviária e terrestre

Ninguém desconhece os graves problemas logísticos que o nosso país vive, e temos escrito muito sobre isso, bem como todos que militam na área. Nossa logística precisa de um horizonte. Não que uma luz no fim do túnel não exista ou não esteja disponível, que ela até está. O problema é que, por ora, é uma luzinha não muito forte, e que precisa ser turbinada para o bem do país e da sua distribuição de carga.

Temos visto o que, no nosso entendimento, é uma guerra surda entre os diversos modos de transporte, em especial o rodoviário contra os demais. Rodovia ou ferrovia? Rodovia ou cabotagem? Não vemos esse problema entre ferrovia e hidrovia em face de que esta última é quase inexistente se comparada com os demais modos e com sua própria potencialidade não explorada, infelizmente.

Os perdedores com isso somos todos: o país, a sociedade, os empresários dos diversos modos de transporte, ou seja, entre mortos e feridos não escapam todos, contrariamente ao famoso dito popular que diz que “entre mortos e feridos escaparam todos”.

É preciso haver uma mudança de mentalidade e o abandono de certos tradicionalismos inúteis. Deve-se seguir o mundo naquilo que foi criado de bom, e que é utilizado, e parar de reinventar a roda, matéria em que nosso país é campeão olímpico.

Se verificarmos a matriz de transporte dos demais países do mundo, verificaremos que estamos inseridos em meio a países de reduzido tamanho, alguns menores que nossos pequenos Estados, ao invés de estarmos acompanhando os países de território equivalente ao nosso, como EUA, Austrália, China, Rússia, Canadá.

Nos países pequenos o transporte rodoviário deve ser a opção natural pela sua intrínseca capacidade de distribuição de carga e de realização de pequenos trajetos. Nos grandes países o natural é a utilização dos modos ferroviário, hidroviário e marítimo de cabotagem.

Com nossa péssima matriz de transportes, conseguimos transformar nossa competência de produção de soja a preço menor do que os EUA, em preço maior na sua colocação no navio, o que torna difícil sermos mais competitivos. Enquanto 70% da nossa soja segue ao porto pela rodovia, 61% da do Tio Sam vai para o navio pela hidrovia, o que faz toda a diferença, transformando o menor em maior e vice-versa.

Assim, nossos empresários – e já nem digo os governos da várias esferas, que devem ser esquecidos – devem acordar para a realidade existente no mundo. É necessário transformarmos parte da carga transportada hoje no modo rodoviário, para os modos ferroviário, hidroviário e de cabotagem.

E, por mais que isso parece contrário aos interesses do transporte rodoviário, que poderia pensar em prejuízos, e de que estamos querendo alijá-los do processo de transporte, essa atitude seria boa para eles também. Assim, pela nossa idéia, todos ganhariam com a mudança.

Como isso ocorreria é fácil de ser entendido. Todos sabem que um trajeto mais curto tem um frete relativamente mais alto. Compare-se o frete relativo de um transporte rodoviário de Porto Alegre a Recife ou a Manaus, e um do porto de Santos até a cidade de São Paulo.

Assim, é muito mais vantajoso para o transportador rodoviário realizar transporte de curta distância, deixando os de longa distância para os mais competitivos transportes ferroviário, hidroviário e de cabotagem.

E, ninguém tenha dúvidas de que o transporte rodoviário ganharia com isso, ao invés da aparente diminuição de sua carga e receita. O transporte rodoviário teria uma diminuição de sua importância quantitativa em favor da importância qualitativa, de uso mais nobre, de imprescindível aos demais modos de transporte.

A receita poderia ser razoavelmente preservada com o frete maior em seus percursos mais curtos, baseado no mix curta e longa distância. A quantidade de carga poderia ser preservada através do crescimento da economia. E a economia cresceria a partir de custos menores das mercadorias, que seriam transportadas com modos que apresentam menor frete, aumentando o poder aquisitivo dos recursos disponíveis para consumo. E, todos sabem e conhecem os trunfos da cadeia menor preço, maior poder aquisitivo, mais consumo, mais produção, mais emprego, etc. Isso criaria, facilmente, um circulo virtuoso que falta à economia há quase três décadas no Brasil.

Entendemos, assim, que é de interesse do próprio transportador rodoviário associar-se e utilizar os demais modos de transporte, até através de um agenciamento da sua própria carga, ou através da multimodalidade – se esta quase nati-morta algum dia funcionar no Brasil.

Será melhor para um transportador rodoviário pegar uma carga para entrega, por exemplo, no nordeste, e colocá-la, por sua própria conta, em outro modo mais barato. Com isso, haveria uma “associação” entre o rodoviário e os demais modos, ajudando-os, ajudando-se, e transformando a economia brasileira, dando-lhe o dinamismo que lhe falta.

Utopia? De maneira alguma. Já está em uso no mundo. É só todos entenderem que os mais diversos modos de transporte não são concorrentes, mas complementares, e que a união faz a força. É o famoso e conhecido processo do ganha-ganha, em que para um ganhar o outro não precisa perder. Todos podem ganhar juntos, principalmente o Brasil.

Ray Croc (McDonald´s) Devemos nos disciplinar para não cairmos na tentação de fazer aquilo para o qual não estamos preparados.

Einsten: A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

Samir Keedi - Economista, mestre, professor universitário e autor de diversos livros e artigos sobre transportes, seguros, logística de transporte e comércio exterior em geral.
samir@aduaneiras.com.br

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