10/3/2004 - O crescimento do ensino de logística
Embora, veladamente, sempre se fez logística no Brasil, com outras denominações, certamente, o chamamento por esta nomenclatura se deu mais fortemente a partir da década de noventa, muito insipidamente, ganhando força nos meados do decênio e culminando com força total no início deste milênio. Nunca é demais lembrar que a logística, como é entendida hoje, se desenvolveu diferentemente nas várias regiões macroeconômicas do globo, inclusive historicamente, e remonta às conquistas greco-romanas.
No país, estamos num estágio intermediário, ou seja, um pouco aquém das práticas da Europa e Japão e bem diferenciado da evolução nos Estados Unidos, até em função da nossa economia de escala muito menor, do poderio do nosso PIB e do nosso comércio internacional, que não vai além de 1% do total praticado no mundo. Assim sendo, em função do cenário supramencionado, é fácil entender o porquê de estarmos nos aparelhando e evoluindo no sentido de um rápido enquadramento às regras do jogo da logística mundialmente aceita. A mola propulsora da busca de recursos da logística está diretamente ligada à necessidade de competitividade das empresas. Sem isto, o negócio emperra e a perda de mercado será inevitável. Como a cadeia logística abarca um sentido lato do relacionamento produtivo e comercial, faz-se mister uma óptica diferenciada de análise, antes segmentada e, agora, dentro de uma parametrização mais global. Daí as tomadas de decisão se embasarem em visões muito mais abrangentes, e não só num ou em alguns momentos da cadeia operacional. É preciso dar uma dinâmica diferente às avaliações do relacionamento interempresariais. O que leva à especialização e, às vezes, terceirização, foco no negócio, etc., tudo isto em busca da competitividade, do diferencial dos serviços e do delta plus.
Isto posto, é fácil de se entender o porquê das empresas modernas estarem se voltando para as ferramentas disponibilizadas pela logística, na busca de reduzirem seus custos, agilizarem suas operações, manterem seus níveis de retorno atraentes, mensurarem suas performances e reconhecerem o grau de satisfação de seus clientes (multiplicadores possíveis de novas aquisições). Na prática, com o advento da TI (Tecnologia da Informação), o acesso aos centros produtores e aos consumidores está muito rápido, e a difusão está praticamente dentro do conceito de domínio público. Resta à logística oferecer opções rentáveis aos operadores e meios interessantes de propiciar ao cliente o recebimento dos produtos desejados no menor custo possível, no prazo e quantidades compatíveis. Para que toda esta máquina nova gire, e gire bem, faz-se necessária uma "nova" linguagem, conhecimento específico dos recursos, novos enfoques, e mensurações diferenciadas, objetivando tomadas de decisão muito diferentes. É imperioso quebrar paradigmas e desenvolver uma nova cultura e mentalidade comercial. As empresas - se mostram mais agora - são mais abertas, e os especialistas e contratados se aprofundam mais e mais nas estruturas e nas operações antes encapsuladas nas empresas e nos negócios. A tônica - de quem faz bem uma certa tarefa, o faz sempre e com vantagens de toda a sorte - é a própria especialização.
Poucos técnicos
Fica patente, portanto, que o cenário geral mudou. Não se pode identificar plenamente se de fora para dentro ou vice-versa, ou uma mescla das duas situações. A verdade é que se precisa cada vez mais de mão-de-obra capacitada e atualizada para tornar factível a operação das novas estruturas de relacionamento, em níveis nacionais e mundiais. Mas, se as empresas não estão preparadas e são interessadas diretamente no processo, imaginem as escolas que andam no caminho inverso do processo por aqui? Não se pode esquecer que sempre foram nas escolas que os cursos nasceram pela necessidade de mercado, e muitos morrerão pela falta de utilização e divulgação. Por outro lado, entendemos que, como o acesso aos "modismos" tem como clientes os profissionais de maiores recursos, no ensino não foi diferente também, pois, as universidades e fundações privilegiam os cursos de nível superior (gerenciais), em detrimento dos de cunho técnico e profissionalizantes (operacionais), o que não me parece lógico. O quadro se que se apresenta hoje nos mostra uma inversão na pirâmide dos profissionais de logística em atuação e formação. A base está inchada de gerenciais, quando deveria ser o inverso, pois, a grande massa deveria ser de técnicos e operacionais, o que não invalidada a necessidade de gerentes e diretores de logística que conheçam o ramo profundamente. Talvez o comércio do ensino tenha sido culpado por esta situação de verdadeira febre de MBAs em logística, pois, a prática tem demonstrado que nem sempre os cursos de pós-graduação e mesmo de graduação têm suprido a contento a necessidade do mercado. No meu entender, prevalece o peso econômico, imediatista quanto ao retorno, e não o social e técnico, que é mais profundo e lento. Donde se pode concluir que os projetos quanto à utilização da logística são atuais e competentes, mas a execução dos mesmos e a busca de suas metas traçadas deixam muito a desejar. E, não pela capacitação (qualitativa) dos profissionais envolvidos no "novo" processo, mas pela disponibilidade (quantitativa) de contingentes aptos a desenvolver as novas tarefas. O que nos leva a crer que houve falha na avaliação do crescimento das necessidades, que condicionou um dimensionamento abaixo da realidade no que se refere a treinamento e ensino, com um sério comprometimento da demanda. Há, portanto, a necessidade de redirecionamento das políticas quanto ao ensino da logística, priorizando-se as bases técnicas e operacionais proporcionalmente às exigências das demandas. Basta consultar pela Internet as disponibilidades estatísticas do MEC, ou o site do INEP - Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (www.educacaosuperior.inep.gov.br), para se ter a certeza de que há muito pouco a respeito dos embasamentos logísticos em cursos técnicos. Mas, há uma luz no fim do túnel. E, por estas e outras que se sobressai a iniciativa, ainda tímida frente ao mercado, de opções como a oferecida pela ABAD - Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores, de enfoque filosófico novo, onde o mercado é quem determina as suas necessidades quantitativas e qualitativas de profissionais, e o conceito de ensino "in company", ora praticado, já é uma realidade (a roupa certa sob medida), pois já se ministrou cursos para mais de 4 mil alunos de nível técnico e operacional, em diversos módulos e com um grau de satisfação acima de 95%. Assim sendo, em razão do crescimento do novo raciocínio logístico no relacionamento mundial dos negócios, seria conveniente que as nossas autoridades revisassem certos conceitos de formação de mão-de-obra, para garantirmos um mínimo suficiente de profissionais de logística às necessidades do mercado, onde o ensino disponibilizado viesse de encontro às reais aspirações evolutivas da sociedade.
Alfredo Neto Diretor executivo da ASLOG – Associação Brasileira de Logística alfredo.neto@aslog.org.br
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