15/9/2004 - A logística daqui a 5 e 25 anos
Nos próximos 5 anos... A Palavra-Chave é SINERGIA
Cada vez mais, a "sinergia" será explorada pelos profissionais e empresas de logística. A necessidade de reduzir custos e proporcionar melhores níveis de serviço ultrapassará as barreiras organizacionais. Empresas "pares" e "complementares" atuarão em conjunto, visando oferecer soluções completas a seus clientes.
Empresas concorrentes serão vistas como aliadas, aproveitando sinergias operacionais para melhor utilizar veículos de transporte e áreas de armazenagem, racionalizar uso de mão-de-obra, minimizar investimentos em ativos operacionais, barganhar junto a fornecedores, etc. O que a 'Folha de São Paulo' e 'O Estado de São Paulo' ousaram fazer recentemente com a criação da SPDL é o que as demais empresas farão amanhã.
Vale lembrar, também, de exemplos como o da Varig e da TAM e a operação conjunta entre a Goodyear e a SKF.
A exploração dos clusters industriais
Ainda na linha da sinergia, clusters industriais serão melhor aproveitados e organizados por grandes 3PLs ou por pools de provedores logísticos especializados. São exemplos de clusters: a indústria moveleira na Região de Bento Gonçalves (RS) e Itatiba (SP), a indústria de calçados no Vale dos Sinos (RS) e em Franca (SP), a logística do turismo para hotéis e restaurantes em Campos do Jordão (SP), Monte Verde (MG), Região Serrana (RJ), Visconde de Mauá (RJ), Serra Gaúcha (RS), Balneário Camboriú e Florianópolis (SC), a indústria de conservas em Pelotas (RS), a indústria vinícola na Serra Gaúcha (RS) e tantos outros.
O modelo de tiers ou camadas
Há alguns anos, o setor automotivo vem se organizando no conceito de "tiers" ou camadas, estando ao redor das grandes montadoras as empresas que compõem o "tier one", aquelas que fornecem diretamente às montadoras e que realizam a montagem de subconjuntos ou módulos como direção, sistema de freio, motor, injeção eletrônica, etc. Ao redor do "tier one" estão empresas fornecedoras de peças ou de pequenos conjuntos, que constituem o "tier two". E ao redor, fornecendo peças, tanto para o primeiro nível quanto para o segundo, estão inúmeras empresas que compõem o "tier three". Empresas do terceiro nível podem contar, eventualmente, com fornecedores, e assim continuamente. Para cada modelo de veículo produzido, há algo entre 250 e 300 fornecedores envolvidos.
Antigamente, empresas dos diferentes níveis se relacionavam com as montadoras, tornando extremamente complexa essa logística de abastecimento, fazendo com que fosse praticamente impossível alcançar ganhos de produtividade e economias em custos.
Mudança semelhante a essa deverá ocorrer no segmento de prestadores de serviços logísticos, em função de pressões dos grandes 3PLs e 4PLs e dos próprios clientes, que buscarão um único ponto de contato e uma única empresa responsável pela gestão dos demais 3PLs.
No centro dessa rede de relacionamentos teremos os grandes embarcadores e operadores logísticos, na sua grande maioria empresas norte-americanas e européias, na forma de 3PLs ou 4PLs. No primeiro cinturão ao redor, compondo o "tier one", estarão as grandes e médias transportadoras, médios operadores logísticos, empresas de tecnologia e grandes provedores de serviços logísticos especializados. Na segunda camada ao redor, formando o "tier two", estarão pequenas e médias transportadoras e diversos provedores de serviços logísticos especializados. Na periferia estarão as microempresas de transporte, caminhoneiros autônomos e outras pequenas empresas prestadoras de serviços em logística.
O resultado disso é que cada vez mais será RESTRITO o relacionamento das empresas prestadoras de serviços logísticos com as empresas clientes. Isso produzirá impactos gigantescos nas empresas, principalmente na estrutura e no perfil da área comercial, nas formas de remuneração, em conceitos de gestão do desempenho, planos de marketing, etc.
A "era" da CVRD
A Vale do Rio Doce será cada vez mais reconhecida como uma empresa de logística do que simplesmente como uma empresa de minérios e alumínio primário. A receita proveniente de serviços logísticos deverá atingir algo próximo de US$ 3,5 bilhões até 2.010 e, possivelmente, represente cerca de 30 % da receita de todo o grupo. Novas empresas do setor logístico deverão ser incorporadas ao grupo, através de fusões ou aquisições, principalmente no modal rodoviário. A empresa deverá formar alianças operacionais estratégicas com os grandes players do mercado mundial de logística, visando criar uma rede de alcance global, permitindo a expansão da empresa para os mercados externos. Dessa forma, a CVRD se constituirá na maior, mais respeitada e poderosa empresa de logística da América Latina e liderará o mercado regional por muitos anos consecutivos.
(Os comentários acima escritos expressam única e exclusivamente a opinião do autor do artigo, não estando baseado em informações oficias ou extra-oficiais de colaboradores da CVRD).
A consolidação dos 4PLs
Ainda um conceito pouco conhecido e desacreditado pela grande maioria, os 4PLS emergirão a partir das grandes empresas multinacionais de logística que aqui se instalaram em meados da década de 90. Será o caminho natural dessas empresas, que optaram por não investir em ativos operacionais, mas muito mais em tecnologia e inteligência logística. A evolução para 4PL será a chave para a sobrevivência dos grandes 3PLs norte-americanos e europeus. Essas grandes empresas já atuam, em grande parte, como 4PLs, mas comportam-se como 3PLs...
"Seleção natural" do mercado
Muitas empresas que partiram para a transformação em Operadores Logísticos deixarão de existir, em função de erros na definição da sua estratégia de atuação, falhas no controle de custos, perda de receita de vendas devido ao nível dos serviços prestados e pela concorrência, tecnologia deficiente, etc.
Outros provedores de serviços logísticos também sucumbirão frente aos novos desafios e exigências do mercado. Cada vez mais a receita se concentrará nas mãos de poucas empresas.
A descoberta das médias empresas pelos grandes 3PLs
Grandes 3PLs buscarão novos clientes entre as empresas de médio porte, dada a saturação do processo de terceirização logística nas grandes empresas.
Remando contra a maré...
Uma parcela significativa de empresas de renome optará por não terceirizar a sua logística e se constituirão em excelentes modelos de gestão, levando a muitos questionamentos, contrariando os principais motivos que levam à terceirização das operações. Os prestadores de serviços logísticos precisarão ser cada vez mais criativos na venda de seus serviços.
A hora e a vez da inteligência logística
Ainda vivemos os primórdios da inteligência logística no Brasil, muitas vezes confundida com uma área de projetos logísticos, limitada a desenhar e dimensionar operações para seus clientes. A inteligência logística se constituirá no grande diferencial competitivo entre as empresas de logísticas; é ela que evitará que serviços de valor agregado não se transformem em commodities.
Os novos requerimentos de entrega
Entregar o mais rápido possível nem sempre será a situação ideal para seu cliente. Principalmente no B2C, ganharão importância as entregas agendadas conforme as necessidades dos clientes. Entregas nos finais de semana também serão cada vez mais freqüentes, em função da disponibilidade de recebimento dos clientes.
O "novo" gerente de logística
O novo gerente de logística se envolverá cada vez menos com assuntos operacionais de seu dia-a-dia, dada a evolução e confiabilidade do nível de serviço prestado pelos seus parceiros logísticos e pela longevidade do relacionamento comercial. Colaborará também para isso o próprio desenvolvimento qualitativo dos profissionais em cargos de supervisão, chefia e analista.
Esse profissional se dedicará mais às atividades estratégicas em logística, exigindo a contribuição de seus parceiros. Os parceiros logísticos precisarão evoluir em conjunto, para atender às novas demandas de seus clientes, que serão cada vez mais complexas. Sua empresa está pronta, por exemplo, para considerar o impacto fiscal numa reavaliação da rede de centros de distribuição do cliente?
O foco no cliente do cliente
Para diferenciar-se de seus concorrentes e realmente agregar valor aos serviços logísticos prestados, o foco passará a ser no CLIENTE do seu CLIENTE, e não mais no cliente direto, em geral o gerente, supervisor ou encarregado do departamento de logística ou suprimentos da empresa atendida.
Além de indicadores de desempenho, que tal levar para o seu cliente um diagnóstico realizado junto aos seus clientes? Agindo dessa forma, sua empresa poderá antecipar-se a problemas que seu cliente não esteja percebendo ou demore a perceber, contribuindo diretamente para que ele venda mais e melhor!
Informações como essas ajudarão o seu cliente a enxergar oportunidades de aumento da lucratividade não apenas com a redução de custos, mas também com o aumento de participação do mercado.
O modelo misto broker e operador logístico
Broker ou Corretor é um agente que serve de intermediário entre o vendedor e comprador, auferindo uma comissão para tal fim. Atua como um agente de vendas, vendendo toda a linha de produtos dos fabricantes que representa, acompanhando o giro e a demanda dos produtos nas lojas, realizando atividades de merchandising, pesquisas de mercado, etc.
Trabalhando com brokers, a indústria transforma o custo fixo de sua equipe de vendas em variável, pois os "agentes de vendas" recebem sobre os negócios efetivados.
Essas empresas estão desenvolvendo uma logística simples, objetiva e econômica, mas extremamente eficaz, contando com estrutura própria ou com o suporte de micros, pequenas e médias empresas de transportes. Por enquanto sua atuação tem se limitado a produtos de consumo massivo como alimentos, bebidas não-alcoólicas e produtos para higiene e limpeza. Empresas como Quaker, Kraft, Melitta, Arcor, Effem, Santher, Parmalat, Garoto, Dana e diversas outras estão utilizando esse modelo de operação.
Levam grande vantagem no mercado, principalmente pelo conhecimento que vêm desenvolvendo em função do contato com os clientes do seu cliente e, em breve, estarão incomodando muitas empresas prestadoras de serviços em logística.
Saudades do mark up...
Cada vez mais os preços serão fixados em bases variáveis. Cada vez mais, parte da remuneração estará atrelada ao desempenho do 3PL. E num futuro não muito distante, parte dela estará relacionada ao desempenho do próprio cliente.
Processos simples de remuneração darão lugar a complexos sistemas de pagamento, exigindo das empresas uma reformulação total de seu processo de precificação.
O novo processo de formação de preços envolverá simulação de cenários de venda ou de operação, análise de risco, conceitos de administração financeira (TIR, VPL, pay-back), opção por fontes de financiamento externas e análises fiscais mais complexas.
O que vender e para onde crescer?
Serviços como Movimentação e Armazenagem, Logística Reversa, Gestão de Transportes, Gestão de Compras e Estoques e Inteligência Logística Aplicada a Projetos Logísticos ganharão destaque, exigindo dos 3PLs rápida adaptação.
Os mercados potenciais para os 3PLs serão aqueles relacionados, principalmente, aos novos costumes da sociedade moderna. Setores como fast-food, empresas de alta tecnologia (eletroeletrônicos, telecomunicações, informática, etc.) e farmacêutico crescerão acima da média. Setores exportadores também continuarão se destacando.
E daqui a 25 anos...
A formação das comunidades logísticas
Grupos de empresas atingirão altíssimos níveis de sofisticação tecnológica e qualidade em seus produtos e serviços, se diferenciando enormemente das demais empresas. Em função disso se organizarão em comunidades logísticas, explorando ao máximo os benefícios da sinergia existente entre elas. Barreiras administrativas, tecnológicas e econômicas serão criadas naturalmente ou não, visando manter o "equilíbrio" do sistema. Um ou mais 4PLs gerenciarão a cadeia de materiais, apoiados por 3PLs altamente capacitados. Os resultados econômicos alcançados serão surpreendentes. O mercado logístico, da forma como atualmente é conhecido, continuará existindo, porém, na "periferia" das comunidades logísticas, envolvendo pequenas e médias empresas.
3PLs e 4PLs como "sócios" das empresas
Seria algo como a evolução do relacionamento entre o McDonalds e seu operador logístico, a Martin Brower, empresa que a atende há 50 anos. A longevidade do relacionamento comercial, a relação de confiança entre as partes e o envolvimento e comprometimento com a operação do cliente transformarão os 3PLs e 4PLs em verdadeiros sócios das empresas clientes, com participação decisória e possivelmente acionária. Possivelmente, parte da remuneração do 3PL ou 4PL seja expressa em opção de compra de cotas de ações da empresa cliente.
Consórcios de 3PLs e 4PLs
Dentro ou fora das comunidades logísticas, sob a coordenação ou não de um 4PL, grandes e médios 3PLs se unirão no campo operacional, com o objetivo de reduzir custos. Imagine, por exemplo, Ryder e Penske dividindo um mesmo centro de distribuição, compartilhando sistemas, pessoas e equipamentos, atendendo ou não a clientes diferentes.
Grandes fusões e aquisições globais
Grandes transformações envolverão as gigantescas empresas do setor logístico através de fusões ou aquisições, formando megaconglomerados logísticos mundiais.
O elemento humano como diferencial entre os grandes players da logística
Dada a evolução tecnológica, os altos patamares de nível de desempenho alcançado nos serviços logísticos e a igualdade dos preços praticados entre as empresas, o diferencial entre os grandes players do mercado logístico voltará a ser a capacidade do ser humano de se relacionar e se comunicar.
Como à moda antiga, as decisões voltarão a se basear em pessoas, valores, afinidades, etc.
Os "super-profissionais" da logística
Em função das complexidades inerentes ao negócio logístico, à alta aplicação tecnológica, às pressões por elevados níveis de serviço e à necessidade de atuar de forma enxuta, profissionais altamente capacitados serão necessários. Num 3PL esse profissional terá que reunir conhecimentos e qualidades para vender, projetar, precificar e operar.
As empresas terão que desenvolver a aprimorar seus sistemas de atração, identificação e retenção de talentos e as universidades, faculdades e empresas de treinamento terão que se preparar para melhor capacitar estes profissionais.
Menu de empresas
Sub-empresas ou divisões terão sido criadas dentro dos grupos empresarias com o objetivo de especializar-se em determinado segmento ou tipo de serviço, como já é realizado pelas grandes empresas de logística nos EUA e na Europa, como a UPS, Fedex, DHL, etc. As empresas existirão sob uma mesma estrutura de gestão e controle e atuarão em conjunto, explorando as sinergias existentes.
A "extinção" do tradicional gerente de logística nas grandes empresas
Dada a regularidade e o nível de atendimento prestado pelos 3PLs e 4PLs, o tradicional gerente de logística deixará de existir, principalmente nas grandes empresas. Em seu lugar surgirá um profissional com um perfil muito semelhante a de um gerente de qualidade, porém com novas responsabilidades, possivelmente fundindo-se a outros departamentos internos da empresa e muito mais voltado ao cliente final.
De certa forma, será um processo semelhante ao ocorrido com um dos cargos de maior destaque nas organizações do século XX, o de gerente de produção, que hoje atua muito mais como um gerente da qualidade do processo produtivo do que como um autêntico gerente de produção, acumulando, em muitos casos, atividades relacionadas ao desenvolvimento de fornecedores, desenvolvimento de embalagens, atendimento a clientes, etc.
Logística 24 horas por dia, 7 dias por semana
O que é hoje uma característica de alguns provedores de serviços logísticos passará a ser de todas as empresas atuantes em logística. O funcionamento ininterrupto exigirá adaptação das empresas e dos profissionais.
Powerhouses
O contínuo aumento da complexidade das operações dos armazéns exigirá investimentos em tecnologia de informação e na automação da operação de movimentação e armazenagem, permitindo atender a diferentes perfis de operação com a mesma produtividade e confiabilidade.
Indicadores de produtividade nunca antes imaginados serão alcançados com o emprego intensivo de sistemas automatizados, refletindo seus benefícios para o setor de transportes.
Novos mercados para a logística
A "indústria do lazer e do entretenimento" será um dos grandes mercados que se abrirão para os profissionais da logística. Profissionais e empresas altamente capacitadas serão necessárias para o gerenciamento e operação de um negócio extremamente complexo. A logística do agrobusiness também terá se rendido aos encantos da logística.
A logística pública
Rendendo-se à competência do setor privado na gestão e na operação da logística, o setor público transferirá grande parte de suas atribuições a empresas privadas. Será algo muito semelhante, mas mais abrangente, ao que tem sido feito nas rodovias privatizadas. Atividades relacionadas ao monitoramento do trânsito, segurança nas vias públicas, gerenciamento de áreas restritas ao trânsito de veículos, planejamento viário, etc. serão realizadas por grandes consórcios empresariais formados por 4PLs e 3PLs.
O Brasil em destaque no cenário logístico mundial
Herdamos dos norte-americanos o desejo obsessivo pela redução dos tempos e distâncias e dos europeus a capacidade de otimizar operações de movimentação e armazenagem.
Aliada à criatividade e flexibilidade de nosso povo, superaremos as dificuldades existentes e nos tornaremos referência mundial em logística. Isso abrirá caminho para que as multinacionais brasileiras em logística conquistem mercados externos e para que muitos de nossos profissionais sejam "exportados" para EUA e Europa para gerenciar complexas operações.
Marco Antonio Oliveira Neves Diretor da TigerLog Consultoria e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br
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